«Enquanto os media produzem o baixo cretinismo, a universidade produz o alto cretinismo.
(…)
Aproximamo-nos de uma mutação espantosa no conhecimento: este está cada vez menos preparado para ser reflectido e discutido pelos espíritos humanos, e cada vez mais preparado para ser incorporado nas memórias informacionais e manipuladas pelos poderes anónimos, nomeadamente os Estados.
Ora, esta nova, maciça e prodigiosa ignorância, é ela mesmo ignorada pelos sábios. Estes, que não dominam, praticamente, as consequências das suas descobertas, também não controlam intelectualmente o sentido e a natureza da sua pesquisa.»
--- Edgar Morin, “Introdução ao Pensamento Complexo”, 1990, pág. 18)

Antes que me comecem a insultar em pensamento, chamando-me de “fascista, reaccionário, anti-ciência, obscurantista, homófobo, nazi, hominídeo das cavernas e troglodita actual”, e outros adjectivos próprios de universitários, convém dizer que Edgar Morin é de Esquerda e que pertenceu ao Partido Comunista francês.
Edgar Morin não o diz no livro, porque dizê-lo seria reconhecer explicitamente os seus próprios erros passados; mas reconhece implicitamente os erros da mundividência da sua juventude. Ou seja, a verdade é que o Iluminismo começou por ser a imposição do império da subjectividade através do “Cogito” de Descartes, para descambar hoje na subjectividade como meio ou instrumento da sua própria anulação e erradicação.
O paradoxo da actualidade é este: o subjectivismo anula e erradica a subjectividade, porque esta última implica a existência da intersubjectividade que o subjectivismo, se não proíbe, pelo menos condena. O subjectivismo passou a ser um “ismo”: uma para-ideologia política intrinsecamente ligada a ideologias totalitárias (por exemplo, Bloco de Esquerda).
A supremacia ideológica actual da hiper-autonomia do indivíduo, e a subjectividade do indivíduo vista — hoje — como um princípio de igualdade social (subjectivismo) são apenas e só duas das muitas facetas desta “nova, maciça e prodigiosa ignorância”, ignorada pelos sábios.
Ao contrário do que é propalado pelo baixo cretinismo dos me®dia e pelo alto cretinismo da universidade, o Homem não progrediu: como é óbvio, e como sempre esteve presente em todas as culturas antropológicas em todo o mundo e desde há milénios — o Homem degenerou e vem degenerando. A superioridade dos deuses das culturas arcaicas e primitivas, nada mais são do que o reconhecimento, reflectido em todas as culturas antropológicas, do facto de que o Homem degenerou.
Com o Iluminismo e com o darwinismo, esta percepção axiomática milenar da degeneração do Homem, foi invertida.
O Homem passou a evoluir. E a evolução do Homem passou a ser uma verdadeira lei da natureza, bem à moda da ciência. O Homem passou a estar condenado a evoluir. Mesmo que não quisesse, o Homem evoluía. Evoluía sempre. Vieram os massacres inomináveis de centenas de milhões de inocentes do século XX, mas o Homem continuou a evoluir. Vivemos hoje numa sociedade sacrificial em que milhões de seres humanos são occisus in utero; mas continuamos inexoravelmente a evoluir. E acreditando na evolução inquestionável do Homem, os “sábios” ignoram a sua própria ignorância.
 
O. Braga | Sábado, 22 Setembro 2012 at 6:04 pm | Tags: Bloco de Esquerda, Cientismo, subjectivismo | Categorias: A vida custa, ética, Ciência, cultura, Ut Edita | URL: http://wp.me/p2jQx-dd8