“A intolerância aplica-se apenas a princípios, e não a pessoas” — reza o texto.
Este princípio é muito bonito, mas conforme nós todos podemos verificar na nossa sociedade, é um princípio perdedor. E, por outro lado, parece esquecer que Jesus Cristo expulsou os vendilhões do templo — Jesus não só foi intolerante em relação ao princípios dos vendilhões como foi também intolerante em relação aos vendilhões em si mesmos.
Existe hoje uma série de equívocos em relação ao Cristianismo que se propalaram através de uma certa intelectualidade, e que moldaram o espírito do “cristão bonzinho que adora levar no corpo”, ou daquele cristão masoquista que utiliza o cilício em prazer auto-flagelativo.
Por exemplo, Fernando Pessoa dizia que sendo que a revolução francesa levantou a bandeira da “igualdade, fraternidade e liberdade”, foi uma revolução cristã. Ora a única coisa cristã na revolução francesa é a fraternidade, porque na Bíblia não está presente o igualitarismo nem o libertarismo.
Por exemplo, na parábola dos talentos, [Mateus, 25 – 14], Jesus Cristo nega o igualitarismo ao premiar o esforço individual. Portanto, dizer que o Cristianismo é igualitarista é uma estupidez de todo o tamanho. E a própria ordem hierárquica da ética de Jesus Cristo é tudo menos libertária, desde logo porque recomenda a submissão à vontade do Pai. A disciplina monástica dos primeiros cristãos revela exactamente que a moderna interpretação libertária do Cristianismo está profundamente errada.
O que devemos tolerar ou não tolerar, para além dos princípios, são os comportamentos. Devemos ser intolerantes para com alguns princípios e, concomitantemente, em relação a alguns comportamentos decorrentes desses princípios. E como esses comportamentos intoleráveis envolvem necessariamente pessoas, é mister que sejamos intolerantes para com essas pessoas. E o resto é conversa de quem adora sentir o cilício pelas costas abaixo.