“É revelador da condição humana que todas as provas e factos empíricos são por norma incapazes de mudar as fortes crenças ideológicas dos indivíduos. É por isso que só é possível contrapor uma narrativa (política) com outra mais sedutora.”
Esta proposição foi respigada no FaceBook e é da autoria de um jovem que faz um mestrado universitário, e que colabora num blogue hayekiano. A proposição necessita de ser interpretada para fazer algum sentido, porque inclui nela uma série de conceitos que, sem uma interpretação, valem pouco.
Duas perguntas: 1) o que é um facto? 2) será que depois de definirmos “facto”, podemos saber se os factos conduzem a uma aproximação da verdade que racionalize [ou seja, que as fundamentem logicamente] as crenças ideológicas?
Ensinaram-nos que o “facto” é um dado da experiência, com o qual o pensamento pode contar [definição comum]. Mas eu não vou por aí, nem ninguém deve ir. A definição de “facto” que se aproxima, o mais possível, da realidade, é a seguinte: o facto é algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência. Os acontecimentos que escapam à nossa consciência, individual e/ou colectiva, não são factos, mas nem por isso deixam de ser acontecimentos.
Quando reduzimos a noção de “facto” ao empirismo [“factos empíricos”, diz ele] que, por definição, se relaciona com a nossa percepção do mundo mediante os nossos sentidos, também adoptamos uma crença ideológica. É assim que o aplicante a mestrado adopta uma determinada crença ideológica para criticar as crenças ideológicas de outros indivíduos. E entramos em círculo vicioso.
O filósofo das ciências, Hans Albert, escreve o seguinte:
“Para o pensamento do dia-a-dia, considera-se, em geral, como característico o chamado realismo ingénuo, uma concepção segundo a qual a realidade está concebida, de maneira geral, tal como aparece na nossa percepção. Portanto, as qualidades sensoriais são aqui elevadas a propriedades dos objectos. Ora, há muito tempo que se sabe que concepções deste tipo levam ao absurdo e a contradições, de modo que é útil revê-las e questionar a interpretação do conhecimento humano que elas exprimem.”
Um dos maiores problemas culturais — da cultura intelectual, que se estende à cultura antropológica — do nosso tempo é a noção, propagandeada como verdadeira, segundo a qual as crenças são uma característica ausente da mundividência empírica em geral, e da ciência em particular. O raciocínio seguido é o seguinte: a ciência baseia-se em factos empíricos e nas ligações causais — sendo que, neste contexto, a “causa” é entendida como sendo determinista [as leis da ciência] e fenomenológica.
Desde Kant que sabemos que a “causa” [determinista] é uma ideia que existe apenas na nossa cabeça; nós transportamos connosco uma multitude de categorias [interpretações] na nossa cabeça, e aplicamos essas categorias ao [aparente] caos resultante das percepções sensoriais, de modo a que nos possa surgir um mundo ordenado. É necessária uma série de categorias e de axiomas na nossa cabeça para transformar uma percepção da retina, por exemplo, numa percepção sensorial. Não existe nenhum órgão dos sentidos no qual não tivessem sido integradas geneticamente teorias antecipantes. A observação [empírica] não é um comportamento passivo: a percepção interpreta.
Portanto, não é possível dizer que os factos podem ser pressupostos, de forma indiscutível, como pontos de partida da ciência — neste caso concreto, também os factos empíricos invocados pelo aplicante a mestrado supracitado. A ciência tem tido muito êxito precisamente porque suprime determinadas questões ou problemas, mas isso não significa que essas questões ou problemas deixem de existir pelo simples facto de a ciência positivista não as considerar.
Todas as observações científicas são feitas no passado; não existe uma certeza ou garantia do futuro, apesar de uma determinada probabilidade que é tanto maior quanto maior for a frequência com que certos fenómenos foram observados no passado.
Se estendermos o conceito de “causa” [determinista] à realidade microscópica [teoria quântica], ficamos praticamente sem “causa” nenhuma.
Não é possível compreender completamente uma teoria científica já formulada, porque isso significaria que se conhecem todas as suas conclusões lógicas [Karl Popper]; seria uma tarefa interminável, porque nunca se pode excluir o surgimento de situações em que a teoria pode falhar devido a uma contradição interna que se torne evidente apenas nesse caso.
Uma teoria não pode ser provada com certeza, nem através da experiência, nem através da intuição intelectual — porque em ciência não existe nenhum indicador infalível para a verdade. Segundo o filósofo da ciência Wolfgang Stegmüller, o conceito de verdade não pertence à ciência, mas antes pertence à teologia.
“O nosso saber é uma adivinhação crítica” [Karl Popper]. “A ideia de um conhecimento seguro do mundo, mesmo que se trate apenas das noções fundamentais mais genéricas, é hoje considerada como fracassada” [Bernulf Kanitscheider, biofísico].
Chegados aqui, será que é legítimo subscrever o cepticismo de Hume? Claro que não! E este é o grande problema da modernidade e do homem moderno. Note-se que o cepticismo de Hume não se restringiu apenas à ciência, mas abrangeu também a ética.
Não é legítimo subscrever nem o cepticismo de Hume nem o positivismo de Comte; não é possível reduzir a realidade a uma determinada visão estrita e estreita. E problema das ideologias políticas é que se transformaram em religiões políticas que imanentizam o éschatos — as ideologias políticas são religiões imanentes, que substituíram, na cultura ocidental, as religiões transcendentais e axiológicas que colocam o ser humano em consonância ordenada com o universo e com a origem axiomática da lógica. Por isso é que se pode dizer que se não existe nenhuma possibilidade de enraizar a ética — e o conhecimento, em geral! — no absoluto, todas as reflexões são inúteis e a lógica não existe.
O empirismo e as ideologias políticas são as duas faces da mesma moeda; ou melhor: são as duas faces da doença cultural ocidental. Por muito que se estude, que se tirem cursos universitários, mas não se compreenda a essência do que foi escrito neste verbete, não adianta absolutamente nada estudar — porque se parte do princípio da validade da Teoria do Balde de Karl Popper.