“Vejamos: eu defendo um ensino com as características tal e tal. Mas seria cego da minha parte — ou pior — não reconhecer que quem defende o oposto disso tem tanto direito quanto eu de o defender, praticar e divulgar. É incoerente desejar para nós a liberdade de ensino que negamos aos outros, reivindicar para nós o direito de ensinar como pensamos que é correcto, ao mesmo tempo que negamos esse direito aos outros.”
Uma coisa é as pessoas terem o direito de defender as suas ideias; outra coisa é considerar, implícita ou explicitamente, que todas as ideias são equivalentes e que, em nome da liberdade, devem ser todas aceites e apologeticamente transmitidas aos alunos.
“A única coisa que está errado no ensino da filosofia em Portugal — e no ensino das outras áreas — é não haver a possibilidade de mais diversidade.”
Diversidade não é a mesma coisa que subjectividade. O ensino de uma qualquer disciplina tem que ter uma forte componente de objectividade. O que pode ser diversa é a forma [o método] como se ensina aquilo que é objectivo. Por outro lado, a filosofia — como tudo na vida — não é eticamente neutra: não é possível dizer: “todas as correntes filosóficas são equivalentes do ponto de vista ético”.
Por exemplo, quando o professor universitário de filosofia, Nuno Nabais, acha particularmente estimulante e interessante o ensino de Nietzsche [o tal que louvou o Marquês de Sade], este facto não significa que a ética de Nietzsche seja racionalmente defensável. Naturalmente que se Nietzsche não for intensa e apologeticamente abordado nos curricula, Nuno Nabais acharia isso detestável; mas teremos sempre que pedir ao Nuno Nabais que justifique racionalmente a sua exigência de especial incidência do ensino de Nietzsche — coisa que ninguém pode racionalmente sustentar.
“Se tivéssemos ampla diversidade, poderíamos ver o que funciona melhor, aquilo que é mais estimulante para os alunos, o que melhor promove o que queremos promover”.
Se tivéssemos a tal "ampla diversidade", o Nuno Nabais, por exemplo, estabeleceria um programa de ensino que teria por base as ideias de Nietzsche, e em função das quais gizaria uma mundividência que seria imposta aos alunos. Não tenho dúvidas acerca disso.
“Impor aos outros, seja a quem for, a nossa concepção de ensino -- e por mais que esteja objectivamente alinhada com o que de melhor se faz nas melhores universidades e escolas do mundo mais desenvolvido -- é inaceitável, e devia ser óbvio que é inaceitável.”
Quando o Desidério Murcho acha “inaceitável que se imponha aos outros a nossa concepção de ensino”, o que ele está a fazer é tentar impor aos outros a concepção de ensino que é a dele. Não é possível assumir uma posição neutral entre a neutralidade e a não-neutralidade. Desidério Murcho cai em contradição.
Quando alguém diz que “eu penso que é inaceitável impor aos outros a nossa concepção de ensino”, pretende afirmar uma verdade que é sempre impositiva; esse alguém está convencido que a sua opinião está correcta e que todos devem corroborar da sua opinião. Por conseguinte, essa pessoa pressupõe que a sua afirmação possui uma validade incondicional, e que existe, entre a sua opinião que ele considera correcta, por um lado, e as opiniões opostas que considera erradas, por outro lado, uma diferença que não pode ser relativizada.