"Isto é uma ameaça à democracia. E é o que acontece em várias áreas em que diferentes cientistas têm diferentes ideias. Em algumas dessas áreas, não é realmente compatível agir de várias maneiras diferentes: é o caso do aquecimento global, seja de origem humana ou não. Neste caso, a ciência é atirada pela janela, juntamente com a probidade epistémica, e depois trata-se apenas de fazer guerra política para ver quem fica com o poder de impor aos outros as suas ideias. É uma coisa feia. E nós, cidadãos que não somos especialistas em climatologia, nem podemos ser, não podemos tomar uma decisão informada e adequada."
Desidério Murcho faz uma crítica às crenças e depois diz implicitamente que o aquecimento global não é necessariamente uma crença. Talvez não lhe passe pela cabeça que o aquecimento global seja uma espécie de religião imanente, ou até uma adaptação actualizada das religiões da Mãe-Terra do neolítico.
Mesmo que existam, de facto, mutações climatéricas — e não “aquecimento global” propriamente dito — no planeta, isso não é razão para transformar esse fenómeno absolutamente natural e historicamente recorrente em uma religião imanente que substitua outras moribundas, como por exemplo, o marxismo. Peter Singer defende a ideia de que os marxistas deveriam abandonar provisoriamente o marxismo e abraçar o neodarwinismo e o aquecimentismo. E os escândalos das estatísticas aquecimentistas forjadas em Inglaterra falam por si.
Desidério Murcho cita Mill, mas aquilo que este escreveu também não deixa de ser uma crença.
Em última análise, e seguindo raciocínio de Desidério, se tudo são crenças [como ele diz] então não vale a pena discutir nada — porque até a realidade macroscópica é uma crença forjada pela entropia da gravidade, e pelos nossos sentidos. E mais: discutir se a música é invenção humana ou não, é discutir o sexo dos anjos, porque os pitagóricos já tinham identificado correlações entre as notas musicais e a matemática — a não ser que a existência dos números primos também seja uma crença; e Kepler falava na “harmonia musical das esferas”. E possivelmente haverá um tipo de música no universo [ou fora dele] que o ser humano não pode ouvir, porque não tem os sentidos adequados.
Desidério Murcho desenvolve todo um relambório para dizer o seguinte: "a verdade não existe, tudo o que nos rodeia são crenças, e por isso, temos que adoptar a pluralidade epistémica". Mas se a verdade não existe, a pluralidade epistémica não faz falta nenhuma. Do ponto de vista da filosofia, pluralismo é sinónimo de relativismo. E é esse relativismo que Desidério defende para o ensino.