"Há exemplos para todos os gostos, desde as praxes académicas em universidades de tenra idade até aos touros de morte em Barrancos; desde a circuncisão dos rapazes e a ablação do clitóris às raparigas, na África, aos abortos dos fetos femininos, na Índia, porque as ecografias já permitem evitar o antigo assassínio das crianças de sexo feminino. Tudo “tradições” ou especificidades culturais que uma mentalidade cultivada e evoluída não encontra razões para poder aceitar."

Nem de propósito, este verbete no Rerum Natura, assinado por um senhor de seu nome João Boavida, parece vir ao encontro do fundamento crítico da “traição dos intelectuais” e da "esclerose múltipla cultural" que expus aqui de forma metafórica. Mas temos de ter cuidado quando tratamos com as tradições: não devemos adoptar uma atitude antitética em relação ao multiculturalismo e, simultaneamente, adoptando uma postura ideológica de acção sistemática contra as tradições.
Nas tradições, deve imperar o ónus da prova: em princípio, todas as tradições são boas salvo demonstração racional do contrário. Sublinho a palavra “racional”, que contrasta com “emocional”. Ora, é este ónus da prova que tende a ser ignorado pelos revisionistas do politicamente correcto.
Por aquilo que eu tenho lido ao longo dos últimos anos, o Rerum Natura é um blogue altamente comprometido com o processo de esclerose múltipla cultural da sociedade portuguesa [que se insere num movimento mais vasto de escloresamento cultural a nível europeu].
Por exemplo, no referido verbete, refere-se criticamente ao “aborto dos fetos femininos na Índia”, sem no entanto referir a causa gritante dessa nova "tradição" indiana: o putativo direito da mulher poder abortar de forma discricionária. Se uma mulher pode abortar quando e como quiser, o que a pode impedir de abortar selectivamente?! Qual é o valor ético que a poderia demover do aborto selectivo, se o próprio acto de abortar, em si mesmo, é legal e mesmo considerado legítimo pela cultura intelectual europeia?
O Rerum Natura fala de um efeito sem se referir à causa, o que denota um pensamento não científico. E este tipo de contradições são insanáveis e saltam à vista.
Outro exemplo: o verbete critica a tradição dos touros de morte em Barrancos. Eu também acho que não é possível fundamentar racionalmente essa tradição, mas o que o verbete pretende é, de forma implícita, meter no mesmo saco a tourada à portuguesa que não mata o touro; e, simultaneamente, na mesma frase, critica o aborto selectivo sem beliscar minimamente o aborto discricionário e caprichosamente a pedido da mulher.
Volto ao que tenho dito aqui: o revisionismo politicamente correcto pretende substituir tabus antigos por novos tabus, sendo que os novos tabus conseguem a espantosa proeza de ser ainda mais irracionais do que as mais irracionais tradições.
Quem lê o texto pode ter a sensação de que se trata de uma análise crítica das posições da tradição irracional do politicamente correcto, mas do que se trata é apenas de uma tentativa de correcção de rumo — na esperança de que se salve o moribundo entrevo e entrevado pela esclerose múltipla da cultura “progressista” actual.