Parece-me que a educação [das crianças] deve ser considerada como um fim em si mesma; ou seja, a educação deve ter em conta a vocação e a formação profissionais, mas deve também estar para além da profissão e de uma visão utilitarista e puramente instrumental da pessoa. A criança deve ser educada para ser uma adulta educada [passo a redundância], e não só para ser, por exemplo, engenheira ou médica. Não é liquido que uma médica, por exemplo, seja necessariamente uma pessoa educada.
No ensino secundário, as disciplinas da área das ciências naturais são absolutamente indispensáveis; mas também não podemos cair no outro extremo, dizendo que “letras são tretas”, ostracizando a área de humanidades. O ensino em Portugal, depois do 25 Abril de 1974, ainda não compreendeu muito bem a complementaridade entre as áreas de ciências e de letras.
Tratando-se de adultos, então a situação não é exactamente a mesma, porque não é possível educar adultos; mas se as crianças tiverem um educação compensada entre as ciências e as humanidades, existe uma grande probabilidade de se tornarem adultos que valorizam as artes, as letras, e também as ciências da natureza. No entanto, fico sem saber se o Desidério Murcho se refere aqui à educação de crianças ou à formação de adultos — porque ele não especifica.
Deveria ser obrigatório, tanto o ensino da matemática, física e da química, por exemplo, como o ensino do português, do inglês e da filosofia — logo a partir dos primeiros anos do secundário, naturalmente com programas adaptados às respectivas faixas etárias. Por exemplo, nos primeiros anos do ensino secundário, em vez de a disciplina se chamar “filosofia”, poderia ter o nome de “ética”; seria pela ética que se iniciaria o estudo da filosofia no ensino secundário.
Naturalmente que a ética não é eticamente neutra; seria um contra-senso se assim fosse. A ética de um militante do MRPP, por exemplo, e em princípio, não é idêntica à ética de um militante do CDS/PP. Portanto, no ensino da ética e da filosofia existem escolhas políticas que não devem ser escamoteadas, e que têm a ver com valores. A defesa radical da liberdade [como a de Desidério Murcho] não pode ser uma justificação para o niilismo e para a promoção de uma cultura niilista — o que seria outro contra-senso. Em nome da liberdade, promove-se assim a construção de um totalitarismo mediante a atomização cultural da sociedade.
A filosofia [e a ética] é baseada em tudo menos na filosofia: é baseada na vida das pessoas e nos seus problemas; é baseada na História, na política, na ciência e na epistemologia, nas instituições [sociais], etc.. Não existe a filosofia fechada em si mesma, aquela dos académicos: essa é uma falsa filosofia. É neste sentido que se diz que a filosofia é objectiva, e que tem a ver com os factos e com a verdade.
Desidério Murcho parece-me um céptico externalista, que é aquele que nega que as razões para considerar que uma coisa é boa, são também as razões para escolher essa coisa. Parece-me que Desidério Murcho se opõe ao cepticismo internalista de Kant: o cepticismo da ética do dever e do imperativo categórico. Tanto o internalismo, como o externalismo, são manifestações do cepticismo ético moderno; mas a verdade é que a ética e a filosofia não se reduzem à modernidade.