“O teorema diz que é verdade uma de duas coisas: 1) ou a função de onda é real, isto é, corresponde directamente a um estado da realidade física, não se limitando a reflectir a nossa ignorância sobre uma realidade escondida, 2) ou então existem acções à distância entre estados separados no espaço e no tempo que a teoria quântica não descreve e que nunca, aliás, foram vistas.”
Em primeiro lugar, temos que saber o que se entende por “real”. Se por “real” se entende algo de “material” — na medida em que tenha tem massa —, então a onda quântica não é real. Mas uma coisa é a onda quântica “pura”, e outra coisa é a Função Ondulatória Quântica [ou “função de onda”, como lhe queiram chamar]. A função de onda rege-se pela complementaridade onda/partícula, e a partícula é matéria porque tem massa.
Portanto, a função de onda é, ou material, ou “imaterial”; ou eventualmente um misto fluído das duas coisas. É isto que o senso comum tem dificuldade de compreender a função de onda, porque vivemos numa realidade macroscópica em que impera a relação sujeito / objecto. A matemática, de certa forma, “fura” essa relação impositiva macroscópica de sujeito/objecto.
Do ponto de vista da filosofia, não existe nenhuma dicotomia entre as duas proposições colocadas pelo jovem cientista. Essa dicotomia pode existir para a ciência porque, de facto, as “acções à distância entre estados separados no espaço e no tempo” nunca foram verificadas até agora, e a ciência vive da verificação da teoria por intermédio da observação — mas também não existe nenhuma dicotomia entre as duass proposições no que diz respeito à matemática.
«As discussões sobre a teoria quântica são tão velhas como a teoria. Nos anos 20 e 30 do século passado, Albert Einstein contestou activamente a visão probabilística proporcionada por essa teoria. Foi por isso que afirmou metaforicamente: “Deus não joga aos dados com o Universo”.»
Quando Einstein dizia que “Deus não joga aos dados com o Universo”, quis afirmar uma visão determinista da realidade e do universo. A invocação de Deus é apenas um fait-divers de Einstein que, não sendo propriamente um ateu, ou era agnóstico ou mesmo deísta [leitor assíduo da Cabala judaica].
Ora, é essa visão determinista do universo e da “realidade em si” que a quântica constatou não ser “bem assim” tão determinista quanto isso. Podemos não conhecer a “realidade em si” — que é aquela “realidade objectiva” a que se refere Einstein no artigo —, mas sabemos já que o determinismo na “realidade em si” tem os seus limites. Naturalmente que sem leis da natureza, sem uma ordem cósmica, seria impossível a própria existência do universo; mas isso não significa que possamos dizer que temos a certeza absoluta que o sol vai nascer amanhã.
Portanto, a “realidade objectiva” de Einstein existe — a “realidade em si”, de Kant —, só que essa realidade objectiva não é se rege por leis naturais absolutamente deterministas.