segunda-feira, 7 de maio de 2012

A ciência que “salva as aparências"

A ciência que “salva as aparências” [1]

Os teoremas das alavancas de Arquimedes são verdadeiros? Sim.

E esses teoremas tem contacto com a realidade [empírica]? Sim, por exemplo, através da construção de catapultas para uso militar.

Mas os teoremas das alavancas de Arquimedes confirmam-se experimentalmente para qualquer tipo de varas? Não.

Os teoremas das alavancas de Arquimedes aplicam-se, só e apenas, a uma “alavanca ideal” que, em princípio, não pode concretizar-se na prática, nomeadamente, uma vara sem massa mas infinitamente rígida; as varas do teorema de Arquimedes não podem vergar e têm que ter uma distribuição uniforme de peso.

O supramencionado significa uma coisa muito simples: Platão tinha razão.

E com Platão, têm razão também toda a tradição pitagórica, incluindo a tese do Mundo 3 de Karl Popper, que baseia o sistema dedutivo na auto-evidência dos primeiros princípios ou axiomas de uma teoria ou ciência [Aristóteles], por um lado, e por outro lado, na relação dedutiva entre as teorias e os axiomas mediante um processo de reductio ad absurdum [de Euclides e Arquimedes, nomeadamente] — processo este que resultou no princípio da falsicabilidade de Karl Popper que destruiu, sem dó nem piedade, o cientismo positivista.


Em contraponto, desde a antiguidade que existe uma outra tendência filosófica, protagonizada nomeadamente por uma criatura de seu nome Geminus [século I a.C.], que defende a ideia segundo a qual a aplicação dos axiomas auto-evidentes a uma teoria só deve servir para “salvar as aparências”; e se os axiomas auto-evidentes não servirem para “salvar as aparências”, então é perfeitamente legítimo que se construa uma teoria partindo de um sistema dedutivo baseado em axiomas falsos. E foi esta tese de Geminus que esteve presente na proposição de Kant — referindo-se à teoria da gravitação de Newton — segundo a qual “o entendimento cria as suas leis; não a partir da natureza, mas prescreve-as à natureza”. Newton não poderia estar mais em desacordo com Kant, porque Newton seguiu claramente a tradição pitagórica de respeito pelos primeiros princípios.

“Salvar as aparências”, segundo Geminus, Locke, Stuart Mill, ou Dilthey, não significa apenas justificar o experimentalismo a todo o custo: significa sobretudo que se torna legítimo utilizar pressupostos [axiomas] de veracidade duvidosa para “salvar as aparências” de uma teoria baseada exclusivamente na observação empírica: partindo de axiomas falsos — ou pelo menos de veracidade duvidosa —, mas considerados perfeitamente legítimos, “salva-se a aparência” daquilo que parece ser verdadeiro mediante observação empírica. Foi o que aconteceu desde Darwin. Desde Darwin que “as aparências aparudem”.

De Newton a Einstein decorreram praticamente 300 anos. Foram precisos 300 anos para que a teoria gravitacional de Newton fosse colocada em causa por Einstein. Desde que Darwin defendeu a ideia da necessidade absoluta de se “salvar as aparências”, só decorreram escassos 150 anos; ou seja, ainda dispomos de outros 150 anos para colocar o evolucionismo darwinista da “salvação das aparências” numa prateleira do museu da ciência.


Podemos estabelecer um paralelismo entre a teoria das marés de Galileu versus astrologia, por um lado, e por outro lado, o evolucionismo darwinista versus criacionismo bíblico. A teoria das marés de Galileu está errada porque Galileu, , era profundamente avesso à astrologia de Ptolomeu e, por isso, não considerou propositadamente o movimento de rotação da Lua na sua teoria das marés. Galileu pretendeu “salvar as aparências” criando uma teoria que prescindiu do recurso à Lua e à “maldita astrologia”. E, talvez por ironia do destino, a descoberta do campo gravitacional por parte de Newton reintroduziu uma ideia de natureza quase-astrológica e post-plotomaica, considerada por racionalistas e pelo próprio Newton, como ocultista [em contraposição a Kant].

De um modo semelhante, o evolucionismo darwinista tem um problema endémico com o criacionismo bíblico. Tudo o que tenha um “cheiro” a criacionismo bíblico não serve para “salvar as aparências” das observações empíricas que sustentam a teoria. E, portanto, segundo o evolucionismo darwinista, é preferível prescindir de quaisquer axiomas auto-evidentes e criar um sistema dedutivo baseado em falsos axiomas [por exemplo, “o universo surgiu do Nada”], para que se possa, assim, “salvar as aparências” e livrar-nos do mal criacionista, Amém.


entre os números inteiros, existe uma infinidade de equações verdadeiras e, também, uma infinidade de equações falsas. Mas as equações falsas entre os números inteiros não deixam de ser falsas pelo simples facto de existirem, assim como os axiomas falsos não deixam de ser falsos porque “salvam as aparências”.
Adenda:

sendo físico




A ciência que “salva as aparências” [2]


A partir do momento em que se torna legítima a ciência baseada em axiomas falsos [no sentido em que não são auto-evidentes], a adesão da ciência à realidade é apenas aparente ou circunstancial; a ciência é, basicamente, reduzida à técnica.

E, por outro lado, essa ciência “amputada” provoca um corte epistemológico com o passado, na medida em que esse corte epistemológico é absolutamente vital para que essa ciência “amputada” se possa afirmar como válida. Sem esse corte epistemológico, a ciência que “salva as aparências” — como é o caso do evolucionismo darwinista — não pode prevalecer.

Esse corte epistemológico com o passado é imposto — pela autoritas dessa ciência “amputada” — nas culturas antropológica e intelectual da modernidade. Com o passar das gerações, as pessoas conhecem, cada vez menos, não só a história das ideias mas essencialmente a História propriamente dita. O cidadão actual vive no presente [presentismo], e uma sociedade sem passado não pode ter futuro. Do ponto de vista intelectual, hoje sabemos mais acerca do funcionamento do cérebro, mas sabemos muito menos sobre a nossa História, ou seja, sobre aquilo que somos e de como chegamos até aqui.

Depois da queda do materialismo dialéctico — que é uma forma de cientismo —, o cientismo adoptou novas formas em nome dessa ciência “amputada”. Hoje, está na moda, por exemplo, a veneração da “psicologia evolucionista” — outra forma de cientismo — que está na base das engenharias sociais politicamente correctas. O corte epistemológico com o passado é, segundo a psicologia evolucionista, absolutamente essencial para livrar a modernidade dos “males da História” e permitir o nascimento do Homem Novo, puro, isento de mal, sem culpa e sem pecado original — uma nova versão do “bom selvagem” de Rousseau. O cientismo “ataca” de novo!

O corte epistemológico com o passado, promovido pelo cientismo, é a causa de uma confusão existencial no homem moderno que não tem remédio; trata-se de uma doença incurável.

O homem moderno procura nessa ciência “amputada” não só a erradicação da tensão existente entre a liberdade humana e a finitude do Homem, mas também procura nela a solução para os seus problemas e conflitos interiores e políticos, quando na realidade o homem moderno é intrinsecamente um “selvagem actual”: de facto, não é essa ciência “amputada” que pode resolver os conflitos morais e políticos da humanidade.

[bom fim-de-semana]

A ler:


A ciência que “salva as aparências” [1]
Não estou a ser pessimista: apenas constato factos!

A ciência que “salva as aparências” [3]

by O. Braga

Descartes — ao contrário de Galileu, por exemplo — pensava que a dedução a partir de princípios auto-evidentes [axiomas ou “primeiros princípios”, sejam estes lógicos ou empíricos] é de utilidade muito limitada na ciência. Mais: Descartes negou que fosse possível estabelecer leis fundamentais da natureza por recolha e comparação de diferentes casos [ao contrário do que defendeu, por exemplo Francis Bacon].
Vou tentar demonstrar aqui como o cartesianismo é metodologicamente semelhante ao evolucionismo.
Aristóteles tinha insistido que os primeiros princípios [os axiomas] se deveriam inferir ou induzir a partir da evidência observacional; e depois, segundo Aristóteles, deveria ser feito o caminho inverso, ou seja, dos axiomas para a observação.
Descartes obedeceu à primeira parte do critério aristotélico de indução e dedução: da observação para os primeiros princípios; mas não obedeceu à segunda parte: dos primeiros princípios para a observação. Em vez disso, Descartes criou axiomas falsos que confirmassem a sua opinião.
Contudo, Descartes partiu da sua mundividência para a interpretação dos fenómenos; Descartes afirmou [“Discurso do Método”] que as leis científicas por ele elaboradas eram consequências dedutivas dos seus princípios filosóficos. E como qualquer interpretação é sempre uma teoria, Descartes aplicou à realidade dos fenómenos uma teoria que já existia previamente na sua cabeça.
O que Descartes tentou fazer foi tentar “salvar as aparências”: partiu das aparências [observação dos fenómenos], deu-as como genuínas [Cogito], para depois lhe aplicar as suas [dele] leis ou axiomas, em função da sua [dele] mundividência. Por exemplo, Descartes interpretou a atracção magnética como sendo uma emissão de partículas invisíveis em forma de parafuso que atravessam canais em forma de rosca presentes no interior do ferro, fazendo assim com que este se mova.
A filosofia mecanicista de Descartes foi muito elogiada pelos maiores pensadores do século XVII, tendo sido mesmo considerada uma doutrina revolucionária. A elite dos pensadores naturalistas daquela época, embora não aceitando totalmente o dualismo de Descartes, acreditaram que a visão cartesiana era mais científica do que as visões “obscurantistas” que consideravam qualidades “ocultas e de tipo religioso”, tais como forças magnéticas e forças gravitacionais. Do ponto vista cartesiano, dizer que um corpo se move em direcção a um magneto — porque alguma “força” foi exercida pelo magneto — é não explicar nada, porque a ideia de “força” ou de “campo” não cabia dentro da concepção mecanicista de Descartes.
O que se passa hoje com o evolucionismo tem algumas semelhanças com com o cartesianismo. Os evolucionistas 1) observam os fenómenos [por exemplo, fósseis]; depois 2) interpretam os fenómenos à luz de uma determinada mundividência que consideram “mais científica” e oposta ao “obscurantismo não-naturalista”; 3) dessa interpretação surgem os axiomas falsos [metafísica] que sustentam a teoria; 4) o evolucionismo não faz devidamente o “caminho” aristotélico dos axiomas para a observação, porque os evolucionistas sabem bem que os seus axiomas não estão de acordo com o que foi observado.



A ciência que “salva as aparências” [4]

by O. Braga

Newton terá sido o maior nome da ciência da Europa depois de Jesus Cristo. Einstein, comparado com Newton e tendo em conta as diferentes épocas e contextos em que ambos viveram, era um neófito. Por exemplo, é costume dizer-se que Einstein foi original porque introduziu o valor do observador independente na investigação científica; contudo, isto é falso, porque foi Newton o primeiro a introduzir o papel do observador independente em ciência.
Poderíamos também falar na genialidade de Leibniz, mas este foi essencialmente um matemático e um filósofo, e não um físico como Newton. Newton acrescentou a física à filosofia e à matemática, e neste sentido foi mais completo do que Leibniz.
A maioria das pessoas que estudaram Newton apenas conhecem os resultados do seu trabalho — por exemplo, as leis do movimento e a mecânica. Mas desconhecem como Newton desenvolveu o seu trabalho e, na minha opinião, esse desconhecimento é promovido intencionalmente pelo ensino. Temos um ensino que pretende esconder dos alunos as causas ou as razões da genialidade de Newton [e não só de Newton]. E há várias razões para essa postura do ensino actual.
Aquilo que a ciência actual considera como sendo uma “teoria” — por exemplo, a teoria do Multiverso —, para Newton era uma “hipótese”.
Para Newton, uma “teoria” é composta por relações de invariância entre termos [conceitos] referentes a qualidades manifestadas na realidade empírica, ou seja, mas que na realidade dos fenómenos. Em contraponto, para Newton, uma “hipótese” é um conjunto de afirmações sobre termos [conceitos] que designam “qualidades ocultas” para as quais não há [ainda] processo de medida conhecido.
relações deduzidas dos fenómenos
não deixam de ter um suporte experimental
Por exemplo, Newton afirmou que ao ter estabelecido a teoria da atracção gravitacional e o seu modo de actuação, elaborou uma “teoria” da atracção gravitacional. Mas referiu-se às teses cartesianas de explicação em termos de vórtices de éter como sendo meras “hipóteses” que, aliás, não estavam em concordância como o movimento observado dos planetas.
Hoje, a ciência considera qualquer hipótese como sendo uma teoria. Stephen Hawking escreve um livro em que aventa a hipótese do universo ter surgido do Nada, e a ciência refere-se a essa hipótese como sendo uma “teoria”. Em nome da ciência, Richard Dawkins escreve um livro defendendo a ideia de que Deus não existe, e a ciência transforma essa hipótese em teoria. Isto já não é ciência: é política pura e dura.



A ciência que “salva as aparências” [5]

by O. Braga

“A interpretação de uma linguagem de observação é determinada pelas teorias que nós utilizamos para explicar o que observamos, e muda assim que essas teorias se alteram.”Paul Feyerabend
O que significa esta proposição? Significa que, com o pós-modernismo, em ciência “vale tudo”. Se eu disser que “os marcianos são verdes”, esta minha proposição também é considerada uma teoria da ciência para a edificação de uma lei deduzida dessa interpretação acerca dos marcianos; Wittgenstein chamou-lhe “Gestalt-shift” (eu diria que é Gestalt shit).
As teorias ditas “científicas” passaram a ser usadas para impor determinadas visões políticas, e para validar de forma exclusivista e autoritarista as mundividências metafísica, ética, e política do naturalismo.
Antes do pós-modernismo, a proposição “os marcianos são verdes” era verdadeira apenas e só porque se partia do princípio segundo o qual não existem marcianos. Depois do pós-modernismo, os factos científicos relevantes deixam de ser concebidos em função de se “ver aquilo”, mas passam a ser em função de “ver como” [Wittgenstein].
Aquilo que eu e tu “vemos” e em conjunto, deixa de ter importância; o que importa é “como” eu vejo aquilo, e “como” tu vês aquilo. Se eu digo que “os marcianos são verdes”, e na medida em que a ciência não pode provar que os marcianos não existem, então a minha proposição — segundo o raciocínio de Feyerabend, Quine ou Hanson — passa a ser uma teoria científica. Foi desta forma que se construiu a “teoria” do Multiverso e a “teoria” de Stephen Hawking segundo a qual “o universo surgiu do Nada”.
Com o pós-modernismo, as informações recolhidas mediante observação não valem nada senão na medida em que são submetidas a uma teoria que, muitas vezes, já existia e é anterior à própria observação [Feyerabend], ou seja, os pontos de suporte de uma teoria são criados pela própria teoria; a teoria científica vale-se a si mesma, e vale por si mesma, sem grande necessidade de evidências empíricas. Por isso é que evolucionistas dizem que “a evolução é um facto”.
Antes do pós-modernismo, o nível teórico era “parasita” do nível observacional [Bridgman]; com Feyerabend e com o pós-modernismo, a observação passa a ser (literalmente) parasita da teoria.
Quando Einstein “criou” a sua [dele] “teoria da simultaneidade”, Bridgman ficou com os cabelos em pé. Puxando pela sua fértil imaginação, Einstein defendeu a ideia segundo a qual a “simultaneidade” é “uma relação subjectiva entre dois ou mais eventos e um observador, e não uma relação objectiva entre eventos”. Ora este exercício de Einstein não tem significância empírica; Einstein poderia ter criado, da mesma forma, uma “teoria de extra-terrestres” ou uma “teoria dos marcianos verdes”. O que Einstein fez pertence à filosofia, e não à ciência. Não é possível considerar a “teoria da simultaneidade” como uma “teoria” no sentido científico; o mais que podemos dizer dela, em termos estritamente científicos, é que se trata de uma “hipótese”.
A partir do momento que em ciência passou a “valer tudo”, as teorias ditas “científicas” passaram a ser usadas para impor determinadas visões políticas, e para validar de forma exclusivista e autoritarista as mundividências metafísica, ética, e política naturalistas historicamente imbricadas — a partir de Bentham e dos socialistas franceses do século XIX — com o darwinismo, com o eugenismo e com o socialismo.




A ciência que “salva as aparências” [6]

by O. Braga

Um artigo do filósofo Roger Scruton
"There are many reasons for believing the brain is the seat of consciousness. Damage to the brain disrupts our mental processes; specific parts of the brain seem connected to specific mental capacities; and the nervous system, to which we owe movement, perception, sensation and bodily awareness, is a tangled mass of pathways, all of which end in the brain. This much was obvious to Hippocrates.
Even Descartes, who believed in a radical divide between soul and body, acknowledged the special role of the brain in tying them together.
The discovery of brain imaging techniques has given rise to the belief that we can look at people's thoughts and feelings, and see how "information" is "processed" in the head. The brain is seen as a computer, "hardwired" by evolution to deal with the long vanished problems of our hunter-gatherer ancestors, and operating in ways that are more transparent to the person with the scanner than to the person being scanned.
Our own way of understanding ourselves must therefore be replaced by neuroscience, which rejects the whole enterprise of a specifically "humane" understanding of the human condition.
In 1986, Patricia Churchland published Neurophilosophy, arguing that the questions that had been discussed to no effect by philosophers over many centuries would be solved once they were rephrased as questions of neuroscience. This was the first major outbreak of a new academic disease, which one might call "neuroenvy."
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