domingo, 15 de abril de 2012

O diálogo do embotamento moderno

O diálogo do embotamento moderno


by O. Braga

Este postal no Rerum Natura descreve sucintamente um diálogo, publicado em livro, entre Deepak Chopra [alegadamente, um “imaterialista”] e Leonard Mlodinow [um cientista naturalista; porque pode-se ser cientista sem ser naturalista]. Este último foi o “ajudante” de Stephen Hawking em várias publicações.


Para poder comentar o artigo em epígrafe, vou ter que recorrer a Karl Popper. Bem sei que Karl Popper não é bem visto à Esquerda e tão pouco é bem visto em uma determinada área conservadora católica; mas lembro que Karl Popper não foi um teólogo: antes, foi um filósofo. Na minha opinião, Karl Popper está entre os cinco maiores filósofos do século XX, juntamente com Karl Jaspers, Louis Lavelle, Eric Voegelin, e Husserl. Tudo o que vou escrever a seguir é baseado nas ideias de Karl Popper, embora não seja ipsis verbis e lhe acrescente a minha visão pessoal.

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A “verdade” não é a mesma coisa que “certeza”. A certeza é uma questão de fé; a verdade tem a ver com factos [objectivos]. O cientismo é a fé aplicada à ciência.
O ser humano tenta impor as suas teorias [científicas] à Natureza [Kant], mas todavia só raramente consegue adivinhar a verdade, e nunca pode estar seguro de o ter conseguido. Temos que nos contentar com um saber conjectural.

Nunca podemos justificar as nossas teorias científicas, porque nunca poderemos saber se se revelarão falsas.

A razão é a capacidade de abstracção em relação aos fenómenos [objectos] e de descobrir os princípios que lhe estão subjacentes. Estes princípios, descobertos pela razão, podem ser falsos ou verdadeiros; e podem até ser considerados falsos sendo verdadeiros, e ser considerados verdadeiros sendo falsos.

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Ernst Mach, sendo um positivista empedernido, foi um adversário formidável da teoria quântica. Podemos dizer que Mach era um materialista na medida em que concebia a verdade baseada em factos objectivos constatáveis exclusivamente pela experiência [empirismo]. Porém, existem formas de materialismo que não o aparentam ser, à primeira vista: podemos dizer que o bispo Berkeley fundou o positivismo ao atacar Newton por este ter introduzido “qualidades invisíveis”, e portanto, “ocultas”, na Natureza; e Berkeley foi seguido especialmente por Ernst Mach e Heinrich Hertz.


Tal como em Deepak Chopra, Berkeley nega a realidade da matéria [imaterialismo], embora, nos dois casos, de modos diferentes. O que interessa saber, neste caso, é que Chopra vê a matéria não como uma realidade em si mesma, mas como uma ilusão [Budismo], e neste particular coincide com Berkeley. O imaterialismo [que nasceu com Descartes que não era um imaterialista] atingiu o seu apogeu com Ernst Mach [que era um positivista], e depois desapareceu porque deixou de ser moderno... até que surgiu o pós-modernismo e as teorias New Age. Portanto, a teoria de Chopra é uma crítica à teoria tradicional da realidade do senso-comum.


No entanto, a teoria [ou a mundividência] de Leonard Mlodinow é também crítica da teoria da realidade do senso-comum, na medida em que nega a existência do espírito e da liberdade humana, já que — segundo Mlodinow e quejandos — tudo o que podemos observar no Homem seria o comportamento humano exterior que corresponde, sob todos os aspectos, ao comportamento animal — mesmo na área linguística. É impossível ser darwinista ou aceitar minimamente a teoria de Darwin, e não se ter uma mundividência determinista do ser humano, o que significa uma visão do ser humano desprovida de liberdade.


Ambas as mundividências e teorias — as de Chopra e as de Mlodinow — são críticas da teoria da realidade do senso-comum. Fazem ambas parte intrínseca do embotamento moderno.

O. Braga
Segunda-feira, 9 Abril 2012 at 8:13 am
Tags: Karl Popper, Rerum Natura
Categorias: A publicar, ética, cultura, Darwinismo, filosofia, Quântica, Religare
URL: http://wp.me/p2jQx-aZJ


Fonte: http://cultura-calvinista.blogspot.com/

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