quinta-feira, 29 de março de 2012

Sobre a crítica ao Distributismo [parte I e II]

Sobre a crítica ao Distributismo [parte I]

by O. Braga

Este texto de crítica ao Distributismo tem várias invectivas que vou dissecar, se Deus quiser, ao longo de alguns postais, tentando uma resposta disciplinada a um texto crítico confuso e indisciplinado.

Em primeiro lugar, o texto critica o desconhecimento dos católicos distributistas em relação a Carl Menger; é desta crítica que vou falar neste postal.
Fazendo uma analogia, para que se compreenda melhor:
Assim como hoje se pretende redefinir a noção de casamento, em que o casamento passa a ser tudo e, por isso, passa a ser nada — na medida em que se transforma em uma noção meramente subjectiva —; de modo semelhante, Carl Menger e os marginalistas redefiniram a noção histórica, cultural e multi-secular de “utilidade”, através de uma radicalização feroz e furiosa dos conceitos de “útil” e de “utilidade”, em que estes dois conceitos passaram integral e totalmente para a esfera do subjectivo: o útil, segundo os marginalistas, passou a ser tudo, segundo uma subjectivação radical; e por isso, passou a ser nada do ponto de vista objectivo e societário.
Nos marginalistas [por exemplo, Carl Menger] existe muito da filosofia moral de Hume que foi também adoptada por Hayek. E a filosofia moral de Hume é, para além de céptica, essencialmente subjectivista. Hume diz que “não seria irracional que um homem preferisse a destruição do mundo, a uma esfoladela no seu dedo” [sic]. Do ponto de vista estritamente racional, ficamos sem saber por que razão seria uma coisa boa salvaguardar, a qualquer preço, a integridade física do dedo de Hume.
A verdade é que o mero facto de desejarmos uma coisa, não constitui uma razão para agir — o que é o contrário do que Hume defendia. O que é a razão para agir é a coisa desejada sob o aspecto da sua bondade [esta noção de razão para agir já vem de Aristóteles; e o marginalismo e Carl Menger diabolizou e ostracizou Aristóteles].
Não é porque uma coisa é desejada que ela é boa; mas também não é por essa coisa ser desejável que ela é boa, ou seja, uma coisa não é boa pela razão do facto de essa coisa ser susceptível de ser desejada. Pelo contrário, quando uma coisa é escolhida, é pelo aspecto da sua bondade; e a bondade não é meramente uma noção subjectiva: quando uma coisa é boa para mim, e notória e objectivamente prejudicial a outrem ou à sociedade, não podemos falar em “bondade” do meu desejo.
Por outras palavras: a nossa vontade não faz parte exclusiva das razões para agir [externalismo]; mas também não podemos dizer que as razões para considerar subjectivamente uma coisa como sendo boa, são também as razões para a querer [internalismo].
Deveríamos antes dizer que as razões para considerar que uma coisa é boa, são também as razões para a desejar, quando a desejamos. E essas razões não são exclusivamente subjectivas, porque uma ética subjectivista não é ética nenhuma. Existe uma componente objectiva da ética que o marginalismo ignorou, dissociando a ética da política e da economia.
Para Carl Menger, “é tão útil a oração para o homem santo, como é útil o crime para o homem criminoso”. Para Carl Menger, é tão legítimo que um criminoso assassine outrem, quanto é legítimo a um santo fazer as suas orações. Com Carl Menger entramos, em termos práticos, no absurdo relativista que se desenvolveu até hoje. Portanto, é neste cepticismo ético e moral Humeano, e na sua radicalização subjectivista, que reside o fundamento do marginalismo e do Neoliberalismo de Hayek.

O “útil”, na linguagem tradicional e comum — e do senso-comum — é o oposto do superficial e/ou do supérfluo, o que implica um juízo moral.
O útil, na linguagem comum e tradicional, estabelece o limite entre aquilo que é legítimo, necessário, razoável [que vem de “razão”], prático, urgente, etc., por um lado, e por outro lado, daquilo que é acessório, fantasista, frívolo, irracional, não essencial, etc.. Carl Menger e os marginalistas erradicaram esse limite estabelecido pela tradição e pelo senso-comum ao longo de milénios.
Para Carl Menger, a utilidade não significa nada mais do que a capacidade ou uma propriedade de satisfazer um desejo individual e momentâneo — seja qual for esse desejo [Hume]. Para Carl Menger, é útil tudo o que é, aqui e agora, desejável; absolutamente tudo. Por exemplo, segundo a noção de utilidade de Carl Menger, para Hitler foi útil exterminar 5 milhões de judeus; e essa utilidade, para Hitler, é valorativamente equivalente à utilidade de Madre Teresa de Calcutá em salvar e tratar centenas de milhares de leprosos.
Em suma: a crítica ao Distributismo, utilizando o marginalismo e o paradoxo do valor, parte do princípio da validade do social-darwinismo em economia. Ou seja, parte do princípio de que não existe ética em matéria económica. E portanto, é uma crítica irracional.

O. Braga | Quarta-feira, 28 Março 2012 at 6:51 pm | Tags: Distributismo | Categorias: ética, economia | URL: http://wp.me/p2jQx-aQY



Sobre a crítica ao Distributismo [parte II]

by O. Braga

A segunda crítica ao Distributismo, deste texto, é a seguinte: “Mesmo sabendo que as pequenas empresas familiares são 'engolidas' pelas grandes empresas monopolistas, não é óbvio que seja sempre preferível que um homem trabalhe na sua empresa familiar em vez de trabalhar para outrem.”
A crítica parte do princípio segundo o qual uma pessoa que trabalhe para uma grande empresa tem mais tempo livre para a sua família, e tem menos preocupações com a perda do emprego e com a falência da empresa. Porém, se analisarmos honestamente o que se passa hoje no mercado de trabalho, verificamos que essa crítica é infundada. Hoje, um trabalhador de uma grande empresa está sujeito a uma pressão sobre a sua vida pessoal muito maior do que se trabalhasse na sua própria empresa familiar. A nossa experiência colectiva, aquilo que todos nós vemos no nosso dia-a-dia, e com a actual neoliberalização das leis laborais, diz-nos que essa crítica neoliberal está errada. Hoje, é muito mais arriscado e mais penoso trabalhar para uma grande empresa do que trabalhar por conta própria em uma empresa familiar.
Por outro lado, essa crítica ao Distributismo parte do princípio errado segundo o qual as empresas familiares não dão trabalho a pessoas de fora da família; e que uma empresa familiar resume-se e restringe-se ao núcleo familiar. Todos nós sabemos que não é assim, e por isso nem vale a pena comentar este aspecto da crítica.
A terceira crítica neoliberal ao Distributismo diz que “se a minha avó não tivesse rodas, não seria um autocarro”; ou “que se cá nevasse, fazia-se cá ski”. Ou explicando de um outro modo: se não fosse a revolução industrial e o laisser-faire liberal, não existiria o Distributismo. Esta premissa é falsa, porque o Distributismo sempre foi baseado numa realidade económica anterior à revolução industrial. E se fôssemos por considerações de ordem histórica, teríamos aqui “pano para mangas”.
O argumento neoliberal é parecido com o seguinte argumento comunista: “se não fosse o 25 de Abril de 1974, o PREC [Processo Revolucionário em Curso] e a revolução comunista dos cravos, nunca, jamais, em tempo algum, teria existido liberdade de expressão em Portugal. Liberdade e comunismo são, por isso, sinónimos.” O argumento é falacioso porque parte do princípio de que o progresso está totalmente submetido a um determinado acontecimento histórico e sem o qual não haveria outra linha de evolução histórica que garantisse esse progresso.
A quarta crítica neoliberal ao Distributismo é a que “o Distributismo não é capitalismo”, dando a ideia de que o Distributismo é anti-capitalista. Retenha o leitor, na sua ideia, o seguinte: o Distributismo não é, de todo, anti-capitalista! Quando o Neoliberalismo diz que o Distributismo é anti-capitalista, comete uma fraude intelectual. O que o Distributismo não adopta — ao contrário do Neoliberalismo, que o faz — é a dissociação social-darwinista [característica do Neoliberalismo] entre o ser humano e a economia; ou seja, o Distributismo não dissocia a economia, a política e a ética.



Divulgação: http://cultura-calvinista.blogspot.com e http://professor-luiscavalcante.blogspot.com

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