«Muita polémica e indignação gerou a publicação de um artigo numa revista de ética médica (Journal of medical ethics), da autoria de Alberto Giubilini e Francesa Minerva, com o título O "aborto pós- natal; porque é que o bebé há-de viver?".
Nele se defende a tese de que é lícito matar um bebé recém-nascido. Não se fala em infanticídio, mas em aborto pós- natal, porque o bebé recém-nascido, como o embrião e o feto, não tem o estatuto moral de pessoa. Não basta ser humano para ter direito a viver.»
Não sei se você, caro (a) leitor (a) leu o romance do escritor russo Dostoievski, com o título “Crime e Castigo”. Se não leu, recomendo a leitura.
Um dos personagens do romance é Rodion Rasholnikov, que defende a ideia segundo a qual a morte de uma pessoa que [alegadamente] não contribui para a sociedade deveria ser legalizada. Porém, note-se que, no romance, Rasholnikov não é um assassino; antes, é um filósofo.
Segundo Rasholnikov, os capitalistas deveriam ser legalmente assassinados porque, segundo ele, não contribuem para a sociedade e para o bem-comum. Para o filósofo Rasholnikov, os capitalistas são parasitas, e portanto deveria existir uma lei que permitisse o seu assassinato sumário. No fim do romance, Rasholnikov compreendeu que a sua teoria estava errada e que, afinal, ninguém tem o direito de retirar a vida a quem quer que seja — e entregou-se à polícia para poder expiar o seu crime.

«Todas as concepções filosóficas e políticas modernas e contemporâneas partem de um paradoxo; de um ponto de vista peculiar que exige o sacrifício daquilo a que os seus autores chamam de “ponto de vista saudável”» — G. K. Chesterton
Muita gente diz que Nietzsche não tem nada a ver com o nazismo; mas que o nazismo assimilou as ideias de Nietzsche, nem um burro nega. Muita gente diz que Karl Marx não tem nada a ver com Estaline; mas que Estaline utilizou as ideias de Karl Marx, nem a mente mais embotada pode negar. Portanto, as ideias têm consequências.
Eu aposto que não passarão muitos anos até que o Bloco de Esquerda defenda publicamente o “aborto pós-nascimento” em Portugal. A estratégia dos ideólogos revolucionários repete-se: trata-se da aplicação prática do conceito fascista de “progresso da opinião pública”.
Se um referendo acerca do aborto é negativo [como aconteceu no primeiro referendo do aborto em Portugal], então o movimento revolucionário aposta no “progresso da opinião pública”, e repete o referendo quantas vezes for necessário até que saia um resultado positivo. O “progresso da opinião pública” é a coacção de índole totalitária em democracia, porque parte do princípio segundo o qual o povo é uma massa inferior e inferiorizada. O “progresso da opinião pública” é um conceito fascista. É por isso que eu penso que o Bloco de Esquerda é o partido político mais reaccionário que existe em Portugal.
Eu penso que não existe outra forma de lidar com estas novas ideologias — por exemplo, as do Bloco de Esquerda — senão através de um certo grau de repressão, e mesmo de alguma violência. A crítica ideológica não chega, porque os seus autores apostam no conceito fascista de “progresso da opinião pública” que não se baseia na Razão mas na imposição de um dogma ideológico. Foi através da aplicação prática do “progresso da opinião pública” que Hitler chegou ao poder na Alemanha:
« (...) a lógica do liberalismo político leva-o a tolerar ideias ou movimentos que têm como finalidade destruí-lo. A partir daí, perante a ameaça, o liberalismo está condenado, quer a tornar-se autoritário, isto é, a negar-se ― provisória ou duradouramente ― a si mesmo, quer a ceder o lugar à força totalitária colocada no poder por meio de eleições legais (Alemanha, 1933) » — Edgar Morin