Com todo o respeito possível, Pedro Picoito está equivocado.
“A lei que mata inocentes gera hoje o conformismo porque, em democracia, a lei gera a moral pública.”
O primeiro país a introduzir uma lei do aborto foi a URSS, logo no início da década de vinte; e o segundo país foi a Alemanha nazi. Reconheço a Pedro Picoito a perspicácia necessária para saber que nenhum destes países era "democrático".

O problema do conformismo em relação ao aborto não está na democracia; a democracia é apenas um “acidente”, um pormenor, uma pequena parte de um problema muito mais vasto. Podemos, por exemplo, retornar ao círculo de Viena e ao Direito Positivo, e a Hans Kelsen — e ao neo-positivismo, em geral. E podemos ir mais atrás à revolução burguesa de 1789, que produziu um Augusto Comte. Estamos a falar aqui de um “processo” — entendido no sentido de concatenação ideológica — que nos conduziu até aqui.
Quando a lei positiva passou a substituir a ética cristã, a maior parte da Europa ainda não vivia em democracia — salvo em Inglaterra de finais do século XVIII [Bentham e o Utilitarismo], em que existia então uma demo-aristocracia, e não propriamente uma democracia parlamentar nos moldes actuais.
E podemos, depois, encontrar as verdadeiras causas do “conformismo gerado pela lei que mata inocentes” nos ideólogos da Razão de Estado e, posteriormente, no absolutismo político que marcou o início da Idade Moderna. O problema não está na democracia, entendida exclusivamente em si mesma: antes, está nas elites, como sempre esteve nas elites desde o princípio da Idade Moderna.
Quando as elites substituem a ética cristã pelo Direito Positivo — o problema começa com os ideólogos da Razão de Estado do século XVII, e depois Hobbes, Hume, Rousseau, Voltaire, Comte, os enciclopedistas, Bentham, os socialistas franceses, Karl Marx e Engels, Stuart Mill, Peirce e os pragmatistas, círculo de Viena e os neo-positivistas, marxismo cultural da Escola de Francoforte, Objectivismo de Ayn Rand, existencialismo materialista de Merlau-Ponty e de Sartre, o Desconstrutivismo que vai de Heidegger a Derrida passando por Foucault, e o “fim da história” do Neoliberalismo de Hayek e de Francis Fukuyama —, o “conformismo gerado pela lei que mata inocentes” passou a ser inevitável: basta sabermos que houve mais vítimas inocentes em guerras, só no século XX, do que todas as guerras juntas desde o século III a.C até ao século XIX.
Portanto, o problema não está na democracia representativa em si mesma: está na modernidade e na paralaxe cognitiva das elites que, como muito bem explicou Olavo de Carvalho, é grosso modo “o desvio do eixo da percepção teórica dos ideólogos para fora da realidade concreta” que caracteriza os ideólogos modernos e contemporâneos, por um lado, e por outro lado, está na dissonância cognitiva da populaça, que resulta da acção política dessas elites — quando o cidadão comum se vê confrontado com as contradições resultantes da paralaxe cognitiva das elites moderna e contemporânea [elites que possuem uma autoridade de direito], entra em dissonância cognitiva que causa o tal “conformismo gerado pela lei que mata inocentes”.
O problema, antes de ser político [a democracia, ou a falta dela], é ético. As pessoas têm que se convencer, de uma vez por todas, que a ética está a montante da política, da economia e da cultura antropológica e/ou intelectual. E quando uma sociedade retira Deus da equação ética, ficamos sem pontos de referência epistemológicos [episteme], e passamos a fazer a opinião [doxa] desligada de um verdadeiro nexo causal.