“As civilizações apenas são mortais porque se tornam clarividentes. Logo que se põem a reflectir sobre si próprias, estoiram...” — Jean-Edern Hallier
Peter Singer, o eminente "eticista" australiano que é professor de uma eminente universidade americana, defende a ideia segundo a qual o estatuto de uma criança recém-nascida é a equivalente ao estatuto de um peixe, e que por isso, a mãe tem todo o direito de a matar, se assim quiser. Ou seja: Peter Singer considera que o infanticídio — já não estamos aqui a falar de aborto — é não só legítimo como dever ser legal.
Mas não só Peter Singer: académicos eminentes, como por exemplo, Daniel Dennett , Richard Dawkins , Christopher Hitchens, Sam Harris, Julian Savulescu, Anthony Cashmore, entre muitos outros, defendem ideias semelhantes às de Peter Singer em questões éticas, e nós sabemos, por experiência própria quando analisamos a História recente, que quando os académicos defendem hoje uma determinada ideia — por mais abstrusa que ela seja — , essa ideia tende a transformar-se [é uma "probabilidade pesada", segundo o conceito de Karl Popper] em facto a longo prazo.
E é neste contexto que o mesmo Karl Popper denunciou a “traição dos intelectuais” que contraria o que eu vejo escrito aqui:
“Continuamos a repudiar os comportamentos que ponham em causa a integridade e a segurança, “a escravatura, os crimes de sangue, a crueldade, a espoliação, a humilhação, as mutilações sexuais, a violação, as sevícias psicológicas e físicas” (p. 168). A nossa capacidade de indignação moral não morreu.
Hoje, parte-se do princípio de que o ser humano é um ser moral qb. e por sua natureza própria [o bom selvagem], e que não necessita de uma educação eticamente conduzida; e por isso, foram banidas as aulas de Moral nas escolas públicas, e a ética e a moral foram remetidas para a esfera privada dos cidadãos. E é, também, por isso, que as pessoas se agarram a uma vã esperança quando afirmam que “a nossa capacidade de indignação moral não morreu”, quando o que nos resta são os resquícios de uma cultura do imperativo categórico que se esvai e se desgasta com a passagem das gerações.
Refiro-me à Europa, evidentemente, porque em outros quadrantes do mundo, a cultura moral não sofreu a influência directa de David Hume e dos filósofos utilitaristas do século XIX: o Utilitarismo Marginal e subjectivista, em países como a Índia, por exemplo, é “colado com cuspe” mediante uma osmose cultural; não pertence intrinsecamente à cultura local. O relativismo subjectivista é essencialmente um problema europeu.
Anatole France escreveu: “Aquilo a que os homens chamam de civilização é o estado actual dos costumes, e aquilo a que chamam barbárie são os estados anteriores.” Entronca neste conceito de civilização e, portanto, de ética e de moral, a ideia segundo a qual o infanticídio legalizado é legítimo quando, um dia destes, fizer parte do estado actual dos costumes através do “progresso da opinião pública”, ao mesmo tempo que as galinhas devem ser protegidas na União Europeia — tal qual defende Peter Singer. A ética e a moral é vista segundo uma falácia ad Novitatem: o que é novo é bom, e o que é velho é mau. E é neste contexto que se escreve o seguinte:
A “ética beneficia de uma legitimidade readquirida, isso não significa a reinserção, no coração das nossas sociedades, da boa e velha moral dos nossos pais, mas sim a emergência de uma regulação ética de um tipo inédito”.
O ser humano ilude-se com a procura do “novo” no que respeita à natureza humana, quando na realidade o Homem Novo nada mais é do que o velho homem reformulado e composto sob vestes diferentes. Nicolás Gómez Dávila tem, a este respeito, uma frase lapidar: “Os problemas não se resolvem: apenas passam de moda”.