Um os ataques mais violentos ao modernismo é de Ortega y Gasset no seu livro “El Tema de Nuestro Tiempo” — a 1ª edição é de 1923, e a que eu tenho [aqui ao lado] é a 14ª edição de 1961 que herdei de família. Não sei se existe este livro em português; estive a ver na Internet e descobri que as livrarias Bertrand têm este livro (em castelhano) disponível em 20 dias por 8 Euros.
Este livrinho é interessante — e de fácil leitura — porque nos ajuda a compreender o que se passa hoje na Europa.
“Durante la Edad, con mal acuerdo llamada “moderna”, que se inicia en el Renacimiento y prosigue hasta nuestros días, ha dominado con creciente exclusivismo la tendencia unilateralmente culturalista. Pero esta unilateralidad trae consigo una grave consecuencia.
Si nos preocupamos tan sólo de ajustar nuestras convicciones a lo que la razón declara como verdad, corremos el riesgo de creer que creemos, de que nuestra convicción sea fingida por nuestro buen deseo. Con lo cual acontecerá que la cultura no se realiza en nosotros y queda una superficie de ficción sobre la vida efectiva.
En varia medida, pero con morbosa exacerbación durante el ultimo siglo, éste ha sido el fenómeno característico de la historia europea moderna.”
[página 47]
Ortega y Gasset distingue [obviamente] cultura [intelectual], por um lado, e tradição [cultura antropológica], por outro lado.
A “unilateralidade culturalista” [eminentemente intelectual] — que surgiu com o Renascimento e foi acentuando a sua influência até hoje — a que se refere Ortega y Gasset, é o abandono crescente da tradição, e com o abandono da tradição, a cultura antropológica morre lentamente porque se afasta das suas raízes vitais — ou seja, porque a cultura intelectual [o racionalismo] se afasta da própria vida do ser humano inserida na Natureza.
Com o abandono paulatino e crescente da tradição, passa a existir uma “escandalosa dualidade entre o que se crê que se faz, por um lado, e o que se faz efectivamente, por outro lado” — a “unilateralidade culturalista” [intelectual], que se impõe através do poder assimétrico do racionalismo sobre a tradição, vai em crescendo até que a tradição morre e a cultura antropológica morre com ela; e o que resta é uma cultura antropológica virtual, dissociada da realidade vital e da dimensão natural do ser humano.
A morte da tradição e o desaparecimento das raízes vitais da cultura antropológica resulta na burlesca contradição da cultura europeia actual, que pretendendo ser uma cultura racional — a única fundada em razões — não é já vivida e sentida pela sua racionalidade, mas antes é adoptada de uma forma mística — por exemplo, a moderna crença mística na ciência que a transforma em uma espécie de religião.
Inserida na morte da tradição e o desaparecimento das raízes vitais da cultura antropológica na Europa, estão também alguns fenómenos de intelectualização [racionalismo] da cultura antropológica que levaram à crescente destruição da família natural através do “casamento” gay, da adopção de crianças por duplas de gays, ao aborto instituído, etc. — em suma, a morte da tradição e a afirmação de uma cultura antropológica virtual que significa a própria morte da cultura antropológica vital.
A consequência deste fenómeno contemporâneo de morte da tradição e o desaparecimento das raízes vitais da cultura antropológica, será a do surgimento de uma revolução cultural, que pode ser violenta e sangrenta.