“A compreensão aparece quando algo se move da minha cabeça para o meu coração.”
Esta frase foi respigada no FaceBook e faz parte da tendência contemporânea para condensar a filosofia em slogans práticos — em princípio, não vejo mal nisso. À primeira vista, esta frase parece ser anti-utilitarista; quando nós "compreendemos com o coração" em vez de "compreendermos com a cabeça", alegadamente abdicamos do “útil para nós” e passamos a compreender o “útil para o outro”.
Podemos até pensar que esta frase se baseia no tradicional anti-utilitarismo da filosofia cristã. Porém, e na medida em que se baseia no império da subjectividade sobre os valores, esta frase revela um utilitarismo exacerbado. Um anti-utilitarismo tem que ser objectivo, e não, subjectivo. E por isso é que Nietzsche é utilitarista (embora se diga por aí “que não”).
A nossa cultura contemporânea é marcada pela influência simultânea – e complementares entre si — de dois tipos de utilitarismo: o “utilitarismo marginal” de Carl Menger e Walras, por um lado, e o seu “irmão gémeo”: o utilitarismo de Nietzsche, por outro lado. Ambos os tipos de utilitarismo baseiam-se na hiper-subjectividade dos valores; neste sentido, são “gémeos”, embora difiram do utilitarismo clássico de Bentham.
É neste contexto da aliança entre Nietzsche e Menger que vivemos hoje, e que surgem as frases-mestras do tipo citado em epígrafe. Essa frase não é de origem genuinamente cristã. O verdadeiro anti-utilitarismo, embora reconheça e valorize a subjectividade, trabalha sobre valores objectivos, universais e concretos, e não valorizando exclusivamente aquilo que “eu, na minha subjectividade, penso com o coração” (emoção).
A extensão exclusivista da hiper-subjectividade aos valores e à ética, é a máxima expressão possível do utilitarismo — é um super-utilitarismo. Por isso é que tanto Carl Menger como Nietzsche são “irmãos gémeos” utilitaristas.