No postal anterior falamos da origem do intuicionismo ético e da sua incapacidade em erradicar o cepticismo ético. Passamos agora descrever brevemente o sistema ético intuicionista nas suas principais características; a minha opinião e notas estão a vermelho.
G.E. Moore aprofundou o intuicionismo que vinha já de Henry Sidgwick — a “intuição ética racional” de Sidgwick, em contraponto ao cálculo racional característico do utilitarismo. Moore parte do princípio da indefinibilidade do adjectivo “bom”. “Bom” não é passível de ser definido — assim como não podemos definir “realidade”. As proposições acerca do “bom” são proposições sintéticas e não analíticas. O “bom” é bom, e ponto final: não podemos dizer mais nada sobre ele. Não podemos reduzir o bom ao prazer nem ao desejo: o conteúdo do conceito de bom é indefinível.
Isto não significa que o “bem” [substantivo] seja também indefinível. O “bem” é a forma do “bom”, e não o seu conteúdo; por isso, podemos definir a forma do “bom”, ou seja, podemos definir o “bem” — o substantivo [bem] é diferente do adjectivo [bom], assim como a forma da totalidade é diferente do seu conteúdo: podemos definir a forma da totalidade [o bem] mas não o seu conteúdo [o bom]. De modo semelhante, podemos definir a forma do Englobante [Deus] mas não o seu conteúdo.
Tal como acontece com o desenho do universo, o "bom" é intuitivamente captado pelo ser humano e é aparente ao mundo. Podemos intuir o “bom” da mesma forma como podemos intuir, por exemplo, o facto de o mundo não ter aparecido há cinco minutos, ou que podemos confiar — até certo ponto — nas nossas memórias, ou ainda quando constatamos que existem outras pessoas para além de nós próprios. Podemos intuir o “bom” como sendo uma “crença básica”: conhecemos o “bom” sem que seja necessária alguma cadeia de inferências que apoiem ou demonstrem esse conhecimento.
Porém, e sendo que o “bom” é, de certa forma, auto-evidente, os valores podem existir sem que o ser humano os conheça [Nicolau Hartmann]; e por isso, essa auto-evidência [deduzida do senso-comum] não é totalmente fiável e depende muito da educação ética e estética do indivíduo, por um lado, e do seu tipo de inteligência, por outro lado. [a inteligência é múltipla: segundo Howard Gardner, podem distinguir-se as seguintes formas de inteligência: a inteligência pessoal, a inteligência linguística, a inteligência física e cinestésica, a inteligência matemática e lógica, a inteligência espacial, e a inteligência musical].

Moore também acentua este aspecto: os valores existem por si mesmos, independentemente do conhecimento do ser humano acerca deles, e não podem ser deduzidos a partir de uma utilidade qualquer; provavelmente, existirão ainda valores que o ser humano desconhece [neste aspecto, Moore aproxima-se de Nicolau Hartmann].
A falácia naturalista
Sendo que o “bom” é indefinível, podemos contudo dizer que existem coisas boas, mas estas coisas boas não são o conteúdo da totalidade [do “bem”], ou seja, não são o “bom” em si mesmo. E quando alguns filósofos dizem que o "bom" é isto ou aquilo — por exemplo, o prazer ou o desejo — incorrem em um erro a que Moore chamou de “falácia naturalista”, que consiste em reduzir o “bom” — que é indefinível — a uma qualquer propriedade boa; ou melhor: em definir o “bom” a partir e uma realidade diferente de si mesmo [do “bom” em si mesmo]. Quando os utilitaristas e epicuristas modernos [aka naturalistas] consideram o prazer como o único bem, incorrem em uma falácia naturalista.
[continua, porque o tempo é escasso]