Antes de entrar no tema gostaria de dizer o seguinte: 1) quando o ser humano pretende criar uma ética para si [substituindo a ética proveniente da revelação religiosa], arranja um grande problema em vez de resolver os problemas éticos; 2) a negação da metafísica é, ela mesma, uma metafísica; não há como sair daqui; 3) a linguagem utilizada aqui pretende ser a mais simples possível, de modo a ser acessível ao maior número possível de pessoas; a linguagem gongórica e muitas vezes ininteligível em vigor nas faculdades de filosofia, não é bem-vinda aqui.

O sistema ético a que se chama “intuicionismo” não tem a sua origem em Moore, mas em Henry Sidgwick que foi professor de Moore. O intuicionismo é uma reforma do utilitarismo [ou daquilo que mais tarde deu no naturalismo ético]: Sidgwick demonstrou a impossibilidade de deduzir logicamente a norma utilitarista da maximização da felicidade do maior número e o postulado hedonista do interesse próprio.
O princípio do interesse próprio ― que é uma característica essencial do utilitarismo ― também pode ser muito útil: por que razão deve a utilidade para o maior número possível de pessoas estar acima da “utilidade para mim”? Sidgwick alvitra que apenas a “intuição ética racional” — e não o cálculo racional — pode fundar a norma ética e ordenar-nos a não conferir mais peso à nossa própria utilidade do que à dos outros.
Portanto, foi Sidgwick que “desmontou” o utilitarismo/naturalismo e criou o intuicionismo ético, e não George Edward Moore. O que Moore fez foi desenvolver o pensamento do seu mestre ao mesmo tempo que mantinha o consequencialismo ético [uma acção tem consequências] comum ao utilitarismo.

Como qualquer outro sistema ético criado pelo Homem [ou seja, desprovido de revelação divina], o intuicionismo não resolve a questão do cepticismo ético e moral — seja este internalista ou externalista. O cepticismo internalista coloca em causa a capacidade da norma moral em relação à motivação para a acção, ou seja, a razão para a acção depende exclusivamente da motivação para agir, seja qual for essa motivação [obrigação moral = motivação para a acção].
O céptico externalista coloca em causa o próprio conteúdo de qualquer norma moral [seja esta qual for], ou seja, segundo o céptico externalista, não há nenhuma verdade em matéria de moral e, por isso, não temos nenhuma razão teórica para considerar qualquer proposição moral como sendo verdadeira.
O céptico internalista defende que as razões para considerar uma coisa como sendo “boa” são também as razões para escolher essa coisa; isso significa, por exemplo, que se uma pessoa considerar que matar gente de outra raça é uma coisa boa, logo tem as razões morais suficientes para agir dessa forma. Um nazi é certamente um céptico internalista.
O céptico externalista nega que as razões para considerar uma coisa como sendo “boa” são também as razões para escolher essa coisa, e apenas porque, segundo ele, não existe nenhuma verdade moral e de qualquer espécie, e a obrigação moral depende exclusivamente da norma legal que institui a moral prática e que muda conforme as épocas [direito positivo]. O pensamento hegeliano [a dialéctica, “o espírito do tempo”, o materialismo dialéctico, etc.] insere-se aqui.

O apelo do intuicionismo aos valores do senso-comum não resolve o problema do cepticismo, porque o senso-comum, por si só e desprovido do conhecimento, depende do Zeitgeist — ou seja, depende das modas das diferentes épocas. Numa época de barbárie [por exemplo, durante a Alemanha nazi], o senso-comum considerado em si mesmo e, portanto, sem a educação e a sensibilização das massas, só pode ser bárbaro; a barbárie começa quando a educação [a paideïa de Aristóteles] deixa de influenciar positivamente a cultura antropológica em uma sociedade.
Portanto, tanto Sidgwick como Moore deram uma importância exagerada ao senso-comum na construção do sistema ético intuicionista. De certa forma, quiseram servir-se do senso-comum para substituir com ele a inexorável origem metafísica da ética — e negando a metafísica, construíram uma outra metafísica, desta vez, insuficiente.