António Sérgio escreveu acerca de Egas Moniz [“Cartas de Problemática”, carta nº 4, Lisboa, 1952]:
«Há anos, certo notável biologista a que se reconhecia mérito, deu-se a vulgarizar a relatividade entre nós. Ignorava as matemáticas; fiou-se, todavia, na possibilidade de tratar “filosoficamente” o assunto. Copiou alguns livros de vulgarização da doutrina, destinados à iniciação de leitores curiosos, de diferentes níveis de cultura científica: uns na matemática inteiramente ignaros, outros já besuntados da sua algebrazinha e do cálculo.
Como é de prever, saiu uma salada que não elucidava a ninguém, mas que ele ia salpicando de certas “filosofias” literárias, com frases como a seguinte: “a teoria da relatividade é a beleza de Vénus de Milo projectada num sistema de equações.”
Dos seus válidos trabalhos de investigação biológica coisa alguma conheceu o nosso grande público; foi porém com tais provas de congeminação “filosófica” que cobrou fama nacional de verdadeiro génio.»

O professor Carlos Fiolhais diz aqui que o ser humano procura um sentido [da vida], mas que existem dois tipos diferentes de sentido: o tipo científico e o tipo religioso. Esta “dualidade de sentidos”, ou a existência de “dois tipos de sentido”, tem como objectivo sacralizar a ciência, promovendo-a a uma espécie de religião. Ao contrário do que se diz no postal, a religião não é só transcendente: existem religiões também imanentes, sejam estas espiritualistas ou materialistas [e que podem ser também religiões políticas].
O que o ser humano não pode fazer é viver sem religião, seja ela qual for. Mas será que as religiões são todas idênticas ou mesmo semelhantes, e todas elas fornecem o sentido? Será que a ciência — quando encarada como uma espécie de religião imanente, porque nem todos os cientistas a vêem assim como Carlos Fiolhais a vê — nos pode dar um sentido de vida?
Vejamos o que nos diz o neopositivista Wittgenstein acerca do sentido da vida: “A solução do enigma da vida no espaço e no tempo, encontra-se fora do espaço e do tempo” [Tractatus Logico-philosophicus, pág. 111]. Quem disser que Wittgenstein não era um defensor acérrimo da ciência positivista, ou mente ou ignora.
Porém, faço aqui uma ressalva: não existe um "enigma da vida", mas antes um "mistério da vida", porque os enigmas são passíveis de ser resolvidos.
O ser humano necessita de sentido.
  • O sentido é uma categoria que descreve a relação da parte com a totalidade; apenas a totalidade, da qual o mundo constitui apenas uma parte, pode ter sentido em si mesma.
  • Não podemos ser nós próprios a criar o sentido para nós — como defende Carlos Fiolhais, quando atribui uma espécie de sentido específico da ciência —, mas temos que o encontrar.
  • O maior sentido que uma vida pode ter é o de estar em sintonia com o sentido da totalidade, da qual o mundo faz parte — uma sintonia que gera felicidade.
  • O sentido da totalidade não se pode descobrir através de opinião subjectiva, nem através de um conhecimento objectivo. Conclui-se que a ciência, por si só, não pode dar sentido ao ser humano.
Adenda: a análise de António Sérgio, de 1952, continua válida.